Comunicação corporativa: antes das palavras, ATITUDES, por favor.


Nota: antes de ler, saiba o caro leitor ou cara leitora que este é um post irritadíssimo; desconsidere, pois, o tom elevado do discurso.

Tudo começou porque resolvi abastecer o carro num posto de gasolina da rede de supermercados Carrefour. Preço por litro muito competitivo.
Moro no alto da Mooca, em São Paulo, e, voltando para casa, passei diante da loja do bairro do Cambuci, onde está a tal loja do Carrefour.
Sabe como é, já que estamos no supermercado, vamos aproveitar para comprar umas coisinhas que faltam em casa. Carro abastecido, entro na loja e compro as tais coisinhas poucas que me faltavam.
Na saída, a caminho do caixa rápido, sou abordado, à direita, por um simpático voluntário do Amigos do Bem (site), pedindo-me para comprar um item da cesta básica, a ser destinado aos carentes. À esquerda  – e simultaneamente –, uma esquálida menina pobre, paupérrima, claramente desnutrida, suja e mal vestida, também me pede que lhe compre um item de cesta básica.
Vi-me numa situação insólita: de um lado, uma instituição reconhecida me pede uma esmola para levar a pobres sei lá de onde; do outro, uma menina pobre, que eu sei de onde, me pede uma esmola, sem consciência de que do meu outro lado uma instituição reconhecida está angariando fundos para outros pobres que não ela. Sabe Deus qual será o moderno sistema de seleção do seu pobre favorito.
Em bom português, vi-me no meio deste samba-do-crioulo-doido da esculhambação social que vivemos no Brasil.
Indignado, fui com meu carrinho de compras até a funcionária da segurança à saída da loja e falei, com todas as letras: “senhorita, enquanto vocês permitirem a mendicância dentro dos corredores da sua loja, eu não compro mais aqui!”. E larguei o carrinho diante dela. Ela, com olhar impávido, burocrático e desinteressado, limitou-se a repetir com sua voz pastosa, qual um gravador de pilha fraca: “senhor, sua queixa é no atendimento ao cliente ali em frente” (incrível! Um cliente dizendo que não vai mais comprar da sua empresa e ela nem tchuns! Mas sou que pago o salário dela, caramba!).
Larguei o carrinho e fui embora.
Não, eu não vou comprar – me recuso solenemente a comprar – de uma empresa que faz vista grossa à miséria dentro de suas próprias instalações! Uma empresa que, por omissão, estimula a mendicância, quando tudo que uma criança pobre NÃO precisa é ser estimulada a mendigar!
E lá vêm eles, no seu site, dizer que “… mantemos uma política de responsabilidade social que prioriza o desenvolvimento comunitário local em três focos de atuação: Programa Voluntário Carrefour, Programa de Mobilização Social e Programa Aula de Cidadania.”
Aula de cidadania… O uso fácil e irresponsável das palavras e expressões “bola da vez”, como é o caso de cidadania, responsabilidade social, sustentabilidade e outras, apenas contribui para a corrosão de uma imagem corporativa.
Antes das palavras, comunicação corporativa se faz com ATITUDE.
Óbvio que não imagino os dirigentes do Carrefour como um bando de cínicos; prefiro acreditar na lisura e na boa conduta daquela gente, mas não consigo ver preocupação séria com a mensagem que a empresa deles passa ao público.
O discurso midiático é simplesmente vazio se não for acompanhado de ATITUDE.
ATITUDE que começa por conscientização, algo que, nas empresas, também tem o nome de treinamento.
Treinamento, senhores executivos! Pelamodedeus, muito treinamento para os funcionários de todos os níveis! De nada adianta vocês jogarem milhões em publicidade se, na hora do “vamos ver”, o freguês foge, como eu fugi (e o que é pior: publicam um post como este para as centenas de pessoas que leem o blog diariamente).
E fregueses fogem pelos motivos mais inescrutáveis. Lembram-se vocês do que dizia o Sam Walton, fundador do Wal-Mart, que é maior que vocês? Se não lembram, cliquem aqui.
Administrar a comunicação corporativa é igual reger orquestra: se um simples chocalho estiver fora do compasso, cai a orquestra inteira.
Acorda aí, gente boa do Carrefour!

  1. #1 by Mariana Melo at 19 de julho de 2010

    Uma das primeiras coisas que a gente nota no Zeca é a sua humanidade. Ele é um cara pé no chão, cheio de história boa para contar e de dicas para compartilhar. Me abriu os olhos, no recente curso de redação criativa, para a simplicidade com que podemos trilhar nosso caminho pela publicidade, se assim desejarmos – basta esforço, interesse (pela lingua, pelos livros, pela vida) e bastante suor. Saí do seu curso mais calma quanto à minha profissão, com mais garra para degustá-la, cheia de admiração e inspiração. Muito obrigada, tio Zequinha. De coração.

  2. #2 by Tom Capella at 2 de julho de 2010

    É tudo marketing

    “Mantemos uma política de responsabilidade social que prioriza o desenvolvimento comunitário local em três focos de atuação: Programa Voluntário Carrefour, Programa de Mobilização Social e Programa Aula de Cidadania.”

    Caro Zeca, li seu texto. Ele é muito mais profundo do que meras observações. Porque tudo isso faz parte de uma grande rede de hipocrisia e farsa em que vivemos. Farsa social. E isso não irá mudar tão cedo. Não é a questão do eu sou bonzinho, cumpro minha parte no âmbito social, posso fazer minhas merdas por aí, etc. Quando questionamos tudo o que achamos errado, o simples fato de comprarmos se fosse o caso um cd pirata nos diferenciaria dos que criticamos? Essa questão da pobreza todos nós sabemos que isso é o resultado de uma pobreza maior que é a pobreza social, moral e egoísta de uma oligarquia farsante e sacana. Fora as religiões que respeito, levantando suas bandeirinhas dos dogmas e fechando os olhos para o problema do homem que é sempre moral. O homem é imoral e amoral. Compreendo que barriga vazia não dá para esclarecer ninguem. Mas compreendo que caso ocorreu comigo no Pelourinho em Salvador, dei uma lata de leite para uma dessas crianças e após meses lá, lá estava ela, a criança novamente, pés sujos, imunda e naquela rotina. E eu com minha postura de bom samaritano cumpri minha pequena parte (parcelinha de culpa?) e fui embora. Conheço a região do Cambucí e principalmente a proliferação que temos de esquecidos da sociedade. Mas em verdade Zeca, ajudo quando posso, mas prefiro dar a minha parte com aitudes.
    Tom Capella

    Parabéns pelo texto, sei que vc não precisa de parabéns, mas entendi o que quis passar e o que se indignou. A funcionária? Há, ela está preocupada com outras coisas, com o salário, o horário e o fina do turno.

  3. #3 by Marcel Yokoda at 29 de junho de 2010

    Oi Zeca!! Como sempre, seus textos me levam com a mesma empolgação do começo ao fim. Parabéns.
    Também me encaixo nesta brilhante narrativa, mas não na figura de cliente. Muito menos como criança pobre. Na verdade, sou um desses “amigos do bem”.
    Como disse no começo deste meu comentário, parabéns pelo texto, ele me empolga justamente porque traduz o que senti da primeira vez que me deparei com estes seres de colete amarelo próximos aos caixas do mercado.
    Confesso que muitas vezes pensei: Puxa, sou abordado na rua, no farol, no metrô, no ponto de ônibus e agora até no supermercado!
    E justamente estes pensamentos, me levaram a vários questionamentos. Que negócio é esse de Amigos? Estes alimentos realmente são entregues ? É coisa do Mercado? É coisa de Político? Por que estes caras estão sorrindo? Por que estão embalando minhas compras?
    Perguntas que fizeram buscar informação. Informação que me fez compreender. Compreensão que me deu motivação. Motivação que me levou a ação.
    Hoje, sou um destes voluntários que doa, sempre com um sorriso, um sábado do mês para tentar fazer a diferença de alguma forma.
    Nessa história, os mercados são somente o meio para conseguir pedir as pessoas, os alimentos para continuarmos a trilhar nosso caminho.
    Novamente Parabéns!
    Espero em breve, poder aprender contigo em uma das oficinas!

  4. #4 by Geyme Lechner Mannes at 16 de abril de 2010

    Oi Zeca!! Parabéns pelo texto! É nossa lamentável verdade, as pessoas vao atrás de preco e propaganda, poucas param para pensar nessa tal “responsablidade social” surrada de boca em boca sem um sentido denotativo entendível. Admira-me o Carrefour compactuar com tudo isso, e mais, puta saco esses caras “amigos do bem” que te abordam quando estais no caixa com a foto de meninos pobres na capa de uma revista qualquer, sou meio desconfiadona, mas já cheguei a pensar que a rede recoloca nas prateleiras do supermercado os produtos que compramos…. Dizem para nao dar esmola na rua, eu nao quero nem saber, dou mesmo!!! E nao importa pra quem seja (salvo raras excecoes), o cara vai comprar cachaca com meu dinheiro?? E daí?? Eu também tomo e por sorte, nao preciso pedir a ninguém!!!!
    Aquele abraco!!!!!

  5. #5 by Tobias at 10 de março de 2010

    Caso parecido aconteceu comigo numa loja Extra, em Santos-SP.
    Texto indiscutivelmente brilhante. Parabéns pela iniciativa.

(não será publicado)
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